Arte chocalheira

Usados nas regiões de pastorícia, os chocalhos têm a sua maior expressão no Alentejo. Os Chocalhos Pardalinho continuam a produzir estes objetos identitários das Alcáçovas, classificados como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente.


Quando em 2015 a UNESCO classificou a arte chocalheira, os chocalhos voltaram a estar na ordem do dia. Entrevistaram-se artesãos, recordou-se a urgência em passar a arte às gerações futuras e em não deixar morrer uma tradição com cerca de 2000 anos. Mas como tantos outros assuntos, acabou por esmorecer com o tempo.

Egídio Santos: o oleiro mais tradicional de São Pedro do Corval

Nascido e criado em São Pedro do Corval, Egídio Santos começou na adolescência a aprender a arte da família. Hoje é o único oleiro na aldeia que mantém a arte tradicional.


Já aqui partilhei que o meu avô era oleiro e que em casa dos meus pais existem muitas peças em barro. Foram pensadas  como utilitárias mas hoje são apenas decorativas e representam um legado da minha história familiar. Sinto, por isso, um carinho especial pela olaria e tenho procurado conhecer mais sobre sobre esta arte em Portugal.

Queijaria Cachopas

Foi há cerca de 50 anos que a avó Maria começou a fazer queijos de forma artesanal. A Queijaria Cachopas cresceu, sempre na família, e hoje é uma das empresas de referência em Évora.


Há uns anos, em conversa com um amigo, disse-lhe que ia passar o fim de semana a Évora.
-E vais trazer queijinhos? - perguntou.
-Queijinhos?
-Sim. Sempre que vou a Évora, passo pelo mercado para trazer queijinhos.
A verdade é que fui a Évora dessa vez e tantas outras e nunca procurei os ditos queijinhos. Mas a sugestão ficou-me.
Quando regressei para passar o meu aniversários no Convento do Espinheiro, voltei a pensar nos queijos. Sempre que procurava sobre o assunto, aparecia-me a referência à Queijaria Cachopas.
Chegar à queijaria e encontrar um pequeno jardim zoológico foi uma enorme surpresa. Num espaço de consideráveis dimensões é possível ver várias espécies animais: cães, javalis, lebres da patagónia, cabras, aves.




Localizando-se à beira da estrada e sendo de acesso livre, poderia ser a razão para justificar tantas pessoas, mas não. Vêm sobretudo à loja adquirir os vários produtos fabricados na Queijaria Cachopas.
Ana Cachopas, que dá continuidade à atividade iniciada pela avó há meio século, fala-me desta empresa familiar. A avó Maria cresceu na aldeia de Montoito, onde o pai era pastor e com quem aprendeu a fazer queijo. Quando fez 35 anos veio morar para Évora onde deu continuidade ao que melhor sabia fazer: queijo. Deslocava-se para junto dos rebanhos que davam leite (alavão) na zona de Cuba e Trigaches e ia alugando espaços onde produzia os queijos, entre Janeiro e Maio. A partir de Junho era altura de os vender nas feiras.
Mais tarde, o seu pai, Joaquim Cachopas, adquiriu uma manada de vacas e instalou-se onde agora é a queijaria. A avó Maria continuou a fazer queijo até há cerca de meio ano atrás. Foi forçada a deixar a atividade aos 88 anos devido a problemas de saúde. Tanto Ana Cahopas como a irmã, ambas com formação superior, deixaram as suas atividades profissionais para darem continuidade a este património familiar.

A produção que começou por ser feita em cântaros de barro e fogo de chão deu lugar a uma queijaria moderna, dotada de toda a tecnologia necessária para garantir um produto de qualidade mas com uma longa tradição artesanal.
Joaquim Cachopas ainda mantém vacas que fornecem o leite à queijaria. O leite de cabra e ovelha adquirem a outros produtores. Depois de recolhido, o leite é arrefecido e trazido para a queijaria e colocado em centros frigoríficos, onde permanece até ao dia seguinte a uma temperatura de 4ºC. Todo o leite para produção de queijo fresco é pasteurizado. O restante também passa pelo pasteurizador, embora só para aquecer e filtrar. O queijo pasteurizado é fabricado a cerca de 60ºC. O queijo feito a partir de leite cru é fabricado a 30ºC.
Além de conhecer mais sobre os queijos de Évora, tinha particular interesse no almece. Ana Cachopas abre a grande "panela" onde já se cozinha esta iguaria alentejana.


O soro do leite de ovelha, cardo e sal fica a cozer cerca de 1h30 até se separar da coalhada. O soro vem novamente ao lume a 90ºC e começa a formar uma espécie de flocos, ou seja, o almece. A única diferença entre o almece e o requeijão é que este é escorrido e o primeiro é servido com o caldo.
Come-se com açúcar e canela ou, como manda a tradição no Alentejo, em sopas de pão. Muitos fazem dele uma refeição por si só.
Na Queijaria Cachopas há dois tipos de fabrico de queijos: o manual e o de moldes. Como já é final de dia, apenas consigo ver este último.


Posteriormente, os queijos são colocados na câmara a curar. Este processo demora cerca de três semanas, ainda que possam ficar mais de um ano. São virados diariamente e mudados de câmara consoante o tipo de cura pretendido: amanteigado, meio seco, meia cura. O aumento da temperatura e a diminuição da humidade vai dar-lhe um aspecto mais amarelado e uma consistência mais seca.


Espreito algumas câmara e pergunto quantos queijos aqui existem. Ana Cachopas não sabe ao certo mas diz-me que diariamente (exceto ao Domingo) transformam 10 mil litros de leite de vaca, 2000 litros de ovelha e 500 litros de cabra em quejos. Pela amostra, eu diria que são muitos. Ainda assim, não lhes permite terem uma grande exportação, dado que o mercado interno absorve quase toda a produção.


Na loja pode ver-se os vários produtos da Queijaria Cachopas: queijo fresco, requeijão, queijos barrados com pimentão, salsa e alho, creme de queijo e doce de leite. Em breve, irão também lançar uma produção de iogurtes.
Não tive oportunidade de conhecer a avó Maria mas ao olhar para todos estes produtos pensei no orgulho que terá nela própria e na sua família.

Queijaria Cachopas
Estrada Salvadas 1 Quinta Lage
7005-839 Évora | Portugal

Cortiçarte

O sobreiro é das espécies mais emblemáticas de Portugal, característico do alentejo e serras algarvias. É conhecido sobretudo pela produção de cortiça muito direcionada para a indústria da rolhas de vinho. Mas desta matéria prima pode-se obter muito mais.


O sobreiro é um elemento cosntante na paisagem alentejana. Vejo-os ao longe, um aqui, outro além, porque a Natureza é como uma obra de arte: necessita respirar. Do sobreiro obtêm-se sobretudo duas importantes matérias: a bolota, antigamente dada sobretudo aos animais e hoje transformada em produto gourmet, e a cortiça, que continua a ser direcionada para a produção de rolhas. No entanto, pelas suas características de elasticidade, impermeabilidade e isolante térmico, é também usada na indústria da construção, decoração e têxtil.

Adega 23

A Adega 23 nasceu num lugar inusitado, junto à A23. A região não é conhecida pela produção de vinho mas a vontade de Manuela Carmona e o auxílio do enólogo Rui Reguinga colocaram-na no panorama dos vinhos nacionais.


Quando ouvi falar da Adega 23 fiquei bastante curiosa. Sarnadas de Rodão, perto de Vila Vellha de Rodão, em plena Beira Interior, não é propriamente conhecida pela produção de vinhos. Quando passei na autoestrada a caminho de Castelo Branco, vi o pequeno paralelipípedo revestido a cortiça e faixa dourada, com a assinatura do atelier RUA. No regresso a Lisboa fiz um pequeno desvio para conhecer este projeto que nasceu em 2013 da vontade da oftalmologista Manuela Carmona em erguer uma adega e produzir vinho.


É Débora Mendes, enóloga residente, quem me recebe. A entrada da adega lembra um pouco uma galeria, já que também foi pensada para receber exposições. Aqui tudo é novo mas nos vários espaços há objetos carregados de história e identidade: a grande mesa oriunda de uma fábrica de tecidos onde ainda estão marcados os metros, garrafas e garrafões, medidas usadas nas tabernas, o mapa de Portugal igual ao da minha escola primária ou o primeiro quadro que Manuela Carmona usou quando começou a dar consultas e que foi transformado em candeeiro.



Alguns destes espaços interiores são ampliados por largas janelas com varandas adjacentes, proporcionando uma experiência complementar com vista para os 12 ha de vinha.



A primeira colheita ocorreu em 2017 e deu origem a três vinhos: um branco, um rosé e um tinto, todos presentes na prova realizada no final. Iniciou-se com o branco, feito a partir das castas Arinto, Verdelho, Viognier e Síria, tímido de cor mas frutado e com bastante acidez. Sendo o Viognier a segunda casta mais presente, é também um vinho com estrutura e untuosidade na boca.


Seguiu-se o rosé, feito a partir das castas Aragonês e Rufete, de cor bem presente, a fugir à atual tendência.
Terminou-se com o tinto que tinha sido colocado no mercado há um par de meses. É o vinho com mais estrutura, feito a partir das castas Syrah, Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Aragonez e Rufete, um verdadeiro super blend. Apesar de jovem, é um vinho robusto, aromático, com os taninos equilibrados e grande potencial de envelhecimento.


Como não é só de vinhas velhas que saem bons vinhos, Manuela Carmona decidiu que nos rótulos apareceria a menção de primeira colheira. Só isso é revelador da paixão, determinação e da crença neste projeto arrojado que tinha tudo para correr mal. Ou talvez não. Nos rótulos está também o primeiro esquiço que o arquiteto Luis Valente fez do que viria a ser a Adega 23.


Para já não se pensa em expansão. Apenas continuar a fazer os melhores vinhos possíveis neste terroir da Beira Interior.

Adega 23
Sarnadas de Ródão, Saída 20 da A23
6030-113 Vila Velha de Rodão
adega23.pt

Monsanto - a aldeia mais portuguesa de Portugal

Aldeia ímpar, Monsanto ostenta vários títulos: aldeia mais portuguesa de Portugal e Aldeia Histórica. Para mim é dos lugares mais incríveis e autênticos do nosso país.


A aldeia de Monsanto é dos lugares mais fascinantes que visitei nos últimos tempos. A manhã era de nevoeiro e a subida até à aldeia foi uma descoberta a cada metro percorrido. Chegar cedo tem sempre vantagem: poder ver a aldeia quase deserta. Junto ao primeiro miradouro avisto a estrada há minutos percorrida e as casas de pedra circundantes. Não soubesse da existência do castelo e nunca diria que lá me espera.

Idanha a Velha

A história de Idanha-a-Velha remonta ao século I a.C., quando era conhecida como Egitânia, uma cidade de passagem entre Braga e Mérida. Por aqui passaram vários povos ao longo dos séculos cujos vestígios ficaram para a posterioridade. Hoje é uma das mais bonitas aldeias históricas de Portugal.


Idanha-a-Velha é daqueles lugares surpreendentes. Esta pequena aldeia, hoje habitada por cerca de 50 pessoas, mantém vestígios que atestam a passagem de vários povos: romanos, suevos, visigodos e muçulmanos.