A primeira vez que entrei num campo de concentração

A cerca de vinte quilómetros de Linz, na Áustria, o Memorial do Campo de Concentração de Mauthausen é o testemunho das atrocidades cometidas pelo regime nazi, levando à morte cerca de 100 mil prisioneiros. 


Vivemos tempos inéditos. Apesar de não ser a primeira vez que o mundo se vê confrontado com uma epidemia, a escala global, a rapidez com que nos deslocamos e a urgência em que vivemos transportou para a vida real o que apenas conhecíamos na ficção.
Neste momento, temos de arranjar a coragem e resiliência necessárias para seguirmos as recomendações das autoridades de saúde e recuperarmos o mais rápido possível a vida que conhecíamos. Alguns tentarão encontrar um sentido para tudo isto. Irão perceber que quando se fecha uma janela se abre sempre uma porta e que temos, obrigatoriamente, de assumir o controlo e procurar a vida que queremos. O nosso lugar seguro. E que para isso é importante não esquecer.
Os caminhos da memória têm-me conduzido a um texto que já está pensado há algum tempo mas que ainda não tinha sido transcrito: a minha visita ao Memorial do Campo de Concentração de Mauthausen, na Áustria. Este campo era um pouco diferente, destinado sobretudo a pessoas com uma escolaridade superior e cujo objetivo inicial começou por ser o extermínio desses prisioneiros. Só mais tarde e por necessidade, passaram a trabalhar nas pedreiras de granito próximas (onde ainda existe a "escada da morte" que vitimou milhares de pessoas pelo chamado efeito dominó) e na produção de armamento.
Chegados ao campo, esses prisioneiros eram alinhados, nus, muitas das vezes com temperaturas negativas, junto ao muro das lamentações. Aqui começavam as torturas físicas e psicológicas. As humilhações.


Consoante a sua origem recebiam uma farda com uma simbologia identificativa: presos políticos, judeus, ciganos, homossexuais. Disso dependia o tipo de tratamento e a sua sobrevivência.
Não chega a uma dezena os registos de portugueses que passaram por Mauthausen, fruto da emigração para França e consequente adesão à Resistência. Já italianos e espanhóis são em maior número. Um dos exemplos mais conhecidos é o caso de Francisco Boix, fotógrafo espanhol e partidário comunista que fotografou, a mando dos nazis, a vida real e encenada que o gosto doentio de Paul Ricken obrigava. Graças a este trabalho e à coragem de fazer cópias ilegais foi possível provar as atrocidades cometidas no campo e a visita das mais altas patentes das SS, como é o caso de Heinrich Himmler. Estas fotografias foram mais tarde usadas como prova dos crimes nazis nos julgamentos de Dachau e Nuremberga. Toda essa informação está muito bem documentada à entrada do pátio das garagens, local que também servia para desinfestação em largo número dos prisioneiros.




Todas as manhãs eram obrigados a concentrarem-se na avenida central e fazerem a saudação nazi. As camaratas, hoje vazias, eram constituídas por três áreas: os dormitórios, projetados para 300 prisioneiros e que chegaram a albergar muitos mais, a zona de convívio e a de higiene, apenas com dois lavatórios de pedra partilhados por centenas de pessoas. Ainda que em menor número, também havia mulheres no campo, muitas delas obrigadas a prostituírem-se.

























A falta de higiene, os maus tratos e os trabalhos forçados levaram muitos prisioneiros a adoecerem e serem tratados, dentro do possível, por outros prisioneiros médicos. Num lugar onde a morte era omnipresente, estar doente permitia acesso quase direto (quando não era sinónimo de cobaia para experiências médicas) à câmara de gás e crematório. Nem é necessário entrar para sentir o murro no estômago e o calafrio. Basta ver a sombra das grandes chaminés no chão e imaginá-las aumentar pelo seu fumo negro.






Não existem espaços menos maus no campo, nem mesmo a área reservada às homenagens que vários países, Portugal incluído, prestam aos seus. Pelo campo de concentração de Mauthausen passaram cerca de 200 mil prisioneiros, dos quais metade foram exterminados. A 5 de maio de 1945, o exército dos Estados Unidos da América entrou em Mauthausen e libertou os 40 mil restantes.


Memorial Campo de Concentração Mauthausen
Erinnerungsstraße 1, 4310 Mauthausen | Áustria

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