Quinta do Portal

Vou todos os anos ao Douro e o mais fantástico é que continuo a sentir aquela emoção como se o estivesse a fazer pela primeira vez. Felizmente, tenho também conseguido conhecer lugares que mantêm a essência duriense e permitem uma genuína experiência do que é uma quinta no Douro. Este ano fui conhecer a Quinta do Portal.


É fácil entender porque é que as quintas junto do rio são as mais visitadas. Quem visita o Douro, por vezes uma única vez na vida, quer estar perto do rio, imaginar o que seriam os barcos rabelos carregados de pipas para Gaia e almoçar, pernoitar ou simplesmente terminar o dia com um copo de vinho do Porto num bonito miradouro criado para o efeito. Eu também tinha essa ilusão. Mas este ano decidi conhecer um outro Douro e adorei a experiência.
Nunca tinha ido além do Casal dos Loivos mas para chegar à Quinta do Portal foi necessário subir muito mais. Confesso que ia receosa devido a experências para chegar a outras quintas mas aqui tudo foi simples. Não há como escapar às curvas e ravinas mas existem duas grandes vantagens: muros que protegem do declive e pequenos miradouros onde é possível parar e contemplar os socalcos dos Douro.
Cruzando os portões da Quinta do Portal entra-se num verdadeiro ambiente de enoturismo. Percorro a estrada empedrada até avistar a Casa das Pipas onde irei ficar nos próximos dias. Há logo algo que me agrada: a diversidade de árvores de fruto, que além de embelezarem o jardim, têm um aroma muito cativante.


A Casa das Pipas está decorada com ínúmeros objetos antigos. No piso térreo, destacam-se as mós de pedra e a grande parede forrada a xisto. Mas é quando subo até à sala de estar que a magia acontece. É o espaço da casa, inundado de luz e repleto de pormenores deliciosos para descobrir. O quadro da Dona Celeste, avó do atual proprietário, João Branco, domina este ambiente familiar que é também um bocadinho de cada hóspede. Além de mobiliário antigo, há inúmeros livros sobre vinhos e arquitetura, pratos antigos e peças de figurado, algumas da autoria dos Irmãos Mistério e Rosa Ramalho. E claro, a vista para os vinhedos.




Esta vista mantém-se quando entro no quarto, com nome de uma casta, à semelhança dos restantes.
Santo António, presente também na sala numa imponente estátua de granito, com o Menino ao colo, não permitiu que as temperaturas fossem convidativas para usufruir das piscinas no exterior mas ainda assim, não deixei de passear pelas vinhas. A Quinta do Portal está toda murada e pode-se perfeitamente fazer uma pequena caminhada (e até um piquenique) e acompanhar os trabalhos necessários.


Para os hóspedes da Casa das Pipas está incluída uma visita às caves de envelhecimento e estágio da Quinta do Portal. O edifício inaugurado em 2010, projetado pelo arquiteto Siza Vieira, armazena os vinhos do Porto e Moscatel, assim como os DOC Douro. O seu exterior está forrado a cortiça, xisto e capoto e tem um cobertura em relva.


A família Mansilho Branco é produtora de vinhos do Porto há mais de 100 anos. No entanto, na década de 90 do século passado adquiriu novos espaços e hoje detém cerca de 150 hectares de vinha distribuídos por 5 quintas: Quinta do Portal, Quinta do Confradeiro, Quinta da Manuela, Quinta da Abelheira e Quinta dos Muros, a mais antiga na posse da família e de onde provêm as melhores uvas.
A produção anual ultrapassa um milhão de garrafas, em que 50% é produção de vinhos licorosos e os restantes DOC Douro.


Gostei muito do conceito da prova que se seguiu na loja de vinhos. Eu tinha reserva para o jantar no restaurante da Quinta do Portal e por isso, além de me ser dado a escolher o que gostaria de provar, a guia contactou o restaurante para saber que vinhos iriam ser servidos, de forma a ter experiências diferenciadoras.
Comecei com um Quinta do Portal Tinto Grande Reserva 2016, com fruta madura bem presente e boa acidez. Terminei com um Portal Moscatel Reserva de 2007 com notas de caramelo.


Foi também durante a prova que uma das senhoras presentes na mesa me falou do restaurante. Tinha lá jantado na noite anterior e não tinha gostado nem da comida, nem dos vinhos e sobretudo do valor. Fui a pensar nisso enquanto me dirigia para lá.


Infelizmente já não cheguei a tempo de conseguir mesa junto da janela com vista para os vinhedos. Mas isso é pormenor de somenos importância, já que não contemplando a vista, estive mais atenta à dinâmica do serviço e sobretudo ao repasto. O jantar começou com dois grandes momentos: uma sardinha com rabanete em tosta de pão e uma terrina de leitão com mousse de laranja. Sem sair da Quinta do Portal, viajei até à Bairrada e segui para um arraial dos santos populares.


Como pré-sobremesa, foi servida uma falsa cereja, que mais não era do que uma bola de gelado com hortelã e peta-zetas. O menú de degustação terminou com uns morangos assados com mousse de mascarpone, pouco doce, como eu gosto, e cuja fruta é oriunda da horta junto da Casa das Pipas. Foi só pena a escolha do vinho ter recaído sobre o 29 Grapes. Com tantos Portos maravilhosos como já tive oportunidade de conhecer, e para um jantar deste nível, certamente se conseguia um pairing melhor.


No final do jantar, o chef Milton Ferreira cumprimentou todos os comensais, recolhendo merecidos elogios. Voltei a pensar na dita senhora. A minha experiência só me permitia discordar por completo. Em primeira lugar, o espaço é muito autêntico, sem decorações fantasiosas. Depois, tem uma equipa de sala cujo nível de formação e sentido de presença está muito acima do praticado na esmagadora maioria da restauração do Douro. As criações do chef Milton Ferreira, harmonizados com os vinhos Quinta do Portal são contemporâneas, requintadas, respeitando o produto e com uma excelente relação preço/qualidade.

Quinta do Portal
EN 323
5060-020 Celeirós | Portugal

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