Vamos aprender a fazer uma marafona?

O nosso património será tanto maior quanto mais o soubermos valorizar. E só há uma forma de isso acontecer: promovendo o saber fazer, preservando e divulgando. Essa é uma das funções do Centro de Artes Tradicionais da Idanha-a-Nova.


Portugal tem um património incrível. Neste pequeno retângulo cabe um mundo de sabores, tradições, paisagens e identidades. A raia não é exceção. A sua localização, especificidade meteorológica, lendas e tradições levou a que ao longo dos tempos uma série de produtos surgissem para atestar a identidade e cultura de um povo. Mas o progresso e a evolução, num mundo altamente tecnológico, levou à perda de um saber ancestral. À medida que os artesãos iam deixando as suas artes, o conhecimento de técnicas milenares próprias de cada produto foi-se perdendo.

O Centro de Artes Tradicionais da Idanha-a-Nova recupera esses produtos emblemáticos do artesanato local.

É lá que conheço a artesã Maria Rosé. As suas mãos são ágeis mas cuidadosas. Enquanto me explica como se faz uma marafona, vai-me também contando a sua história. Foi há 27 anos que juntamente com mais 12 pessoas, fez um curso onde aprendeu este saber fazer. Já lá vão 10 anos que trabalha a tempo inteiro no Centro de Artes Tradicionais onde faz um pouco de tudo, incluindo receber os visitantes e demonstrar estas técnicas.


Maria José começa por demonstrar como se faz a marafona. A base é uma cruz de madeira que está associada à lenda do cerco. E aqui recuamos muitos séculos atrás, até ao tempo em que a aldeia de Monsanto esteve cercada por inimigos. Diz o ditado que quem conta um conto, acrescenta um ponto, e com o tempo o que começou por ser uma história profana, acabou por ser sacralizada. Assim, a lenda do cerco conta que os monsantinos, estando fechados no castelo há sete anos, começaram a ver as suas reservas alimentares a escassear. Surgiu então a ideia de alimentar a última vaca com o que restava de trigo e atirá-la muralha abaixo para que o inimigo visse que não passavam fome. Perante tal imagem, o cerco foi levantado pois acreditaram que estavam protegidos por uma entidade superior. Após tantos séculos, no dia 3 de Maio, dia da Divina Santa Cruz, ou no domingo seguinte, os monsantinos sobem ao castelo em romaria. As mulheres têm um papel crucial. Trajadas a rigor, algumas vão tocando os seus adufes e outras desfilam as marafonas. Uma vez no castelo, um pote caiado de branco e ornamentado com flores, simbolizando a vaca, é atirado, recordando assim a lenda do cerco.



Mas voltemos às mãos hábeis de Maria José que continua a fazer a marafona. À cruz junta-se a cabeça, faz-se o peito e aperta-se. Cobre-se com pano branco para ficar mais perfeito, cose-se a corta-se o excesso. Depois começa a vestir-se a boneca, que segundo a lenda, tem de ser com cores garridas. Maria José cose os dois saiotes de flanela, um vermelho e outro laranja.




Depois coloca o vestido e ajusta. O lenço na cabeça aperta-se atrás das costas. Por último, e porque estamos a falar de uma figura feminina, coloca-se um laço à cintura para embelezar o vestido.


A marafona está também associada à fertilidade dos campos, dos animais e do casamento. Por isso, é colocada debaixo da cama na noite de núpcias. No entanto, não tem olhos, nariz ou boca para que não possa relatar nada do que presenciou. Tem ainda o poder de afastar as trovoadas e em dias de tempestade é colocada à janela para que o perigo se afaste.

Mas quando fez o curso há 27 anos, Maria José começou por fazer adufes.

Agora estamos no inverno e por isso não é possível fazer uma demonstração, já que é necessário sol e calor para que a pele seque. No entanto, pega num e explica-me o seu processo. Na base está uma armação de madeira quadrangular a que se chama de armas. Hoje existem vários tamanhos mas o tradicional tem 40 cm x 40 cm. É feito com pele de ovelha (raramente usa a de cabra), é cosido e só depois vai a secar.
Por cima dos pontos pode colocar-se uma fita de seda colorida, fixada por pequenos pregos e nos cantos aplicam-se fitas coloridas chamadas de maravalhas. O som característico advém das caricas colocadas no interior, embora também se possam usar pedras, chapas ou guizos. Antigamente, o adufe era apenas tocado por mulheres mas hoje já há também homens a fazê-lo.


No Centro de Artes Tradicionais há alguns adufes de pequenas dimensões, usados por crianças nas escolas, para que este objecto tão identitário seja conhecido desde tenra idade. Adufes, marafonas, trajes arraianos (aventais e sacolas), rodilhas, tapetes ou sacos de pano para transportar os adufes são alguns dos objectos que podem ser aqui adquiridos.



Este é o exemplo de que a preservação da memória e do património não são inimigos do progresso.

Centro de Artes Tradicionais
Rua de São Pedro, 15
6060-111 Idanha-a-Nova | Portugal

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