6 de novembro de 2018

Jamek

Em Joching, numa antiga casa de 1910, a família Jamek oferece um espaço idílico para apreciadores de vinhos de Wachau acompanhados de boa comida. 


O vale de Wachau é conhecido pelos seus terraços de vinhedos, pequenos lugarejos cheios de charme debruçados sobre o Danúbio e um destino de excelência para quem não dispensa boa comida.
A casa Jamek é uma das produtoras de elite dos vinhos de Wachau. Josef Jamek adquiriu, replantou e requalificou as vinhas de Klaus e Achleiten. Josef não era homem de modas e tendências e sempre defendeu a sua própria visão: vinhos com pouco açúcar, acidez e álcool e o mais naturais possíveis. O tempo e a fermentação malolática encarregam-se de ajudar a obter grandes vinhos. Hoje possuem 25 hectares de vinhas nos locais mais priveligiados de Wachau, com predominância das castas Grüner Veltliner, Riesling, Pinot Blanc e Chardonnay. À semelhança de outras adegas, o negócio mantém-se na família, atualmente na 4ª geração.
Há lugares que o homem ergueu mas que parecem fazer parte da natureza. A casa da família Jamek é um desses exemplos. A sua localização é excepcional, entre o rio e os vinhedos, numa paisagem de grande beleza.



São 11h30 e o restaurante acabou de abrir portas. Os austríacos não são nada como nós: comem muito cedo. Três simpáticas funcionárias, vestindo orgulhosamente o tradicional dirndl, o traje típico austríaco feminino, recebem os clientes com um sorriso conduzindo-os à esplanada para disfrutarem do agradável dia soalheiro.
Mas eu vou com um propósito um pouco diferente. Antes dos prazeres da mesa, pretendo conhecer melhor estes vinhos e acabo por fazer a prova ali mesmo. Peço algumas sugestões mas tendo em conta as provas do dia anterior, já sei que o meu favorito é o Smaragd. 


Inicio com um Ried Klaus Riesling Smaragd 2017, com bastante mineralidade. Seguiu-se Ried Liebenberg Grüner Veltliner Smaragd 2017, um vinho mais seco, menos mineral e com estágio em madeira. 


A esplanada estava inundada de sol. Todos os lugares seriam excelentes mas fico junto à casa, onde posso observar não só o relvado e vinhedos, como os restantes clientes. Na mesa em frente vejo umas “caras conhecidas”: Hartmuth Rameder, que conheci na noite anterior no Hofmeisterei Hirtzberger, está a almoçar com família e amigos. Primeiro achei curioso que Julia Altmann viesse à mesa cumprimentá-los. Pensei que fosse um gesto de amizade e de união entre pessoas que estão no mesmo ramo mas quando vi Johannes Altmann, o atual responsável pelo restaurante cumprimentar mesa a mesa todos os clientes, saber como estão, se tudo está do seu agradado, percebi que é algo normal. Além de ser um negócio muito familiar, é também muito próximo das pessoas.
Foi com alguma dificuldade que olhei para a ementa, já que tudo em redor é verdadeiramente encantador. Chegou à mesa o pão, manteiga de ervas e porco fumado, tudo produtos locais. É este mesmo o espírito da casa: cozinha austríaca requintada e produtos sazonais em homenagem a Altwirtin Edeltraud Jamek, a avó da atual geração. 


Decidi fechar o cardápio e pedir uma sugestão.
–Pato? Sim, é isso mesmo!
Lembrei-me logo da minha viagem pela Dordonha e de como os franceses trabalham tão bem esta iguaria. Não sabia bem como iria ser servido mas iria ser bom certamente. E foi. Uma redução de vinho do Porto acompanhou uma carne muito tenra e suculenta, um puré de batata moldado em bola e ligeiramente ensalsada. Acompanhou com uma salada de couve semelhante ao chucrute e passas com um ligeiro travo alcoólico.



Johannes Altmann volta a fazer uma ronda pelas várias mesas, desta vez com o seu pequeno filho Josef ao colo. Tem uma colher na mão e pede insistentemente comida ao pai.
–Conheço muita gente que gosta de comer mas nenhum como o meu filho. – diz-me enquanto o leva de novo para dentro de casa.
Com um património familiar deste calibre, podemos censurá-lo?
As sobremesas eram todas tentadoras mas como sou apologista de que menos é mais, pedi um bolo da casa e chegou uma fatia com chantilly e cobertura de chocolate. Não podia despedir-me sem provar o espumante, que foi de longe o vinho que mais me surpreendeu. A casta Grüner Veltliner bem evidente, notas florais, boa acidez e uma bolha fina.



No final, Johannes Altmann mostrou-me as restantes salas e convidou-me a explorar um pouco mais a propriedade. Quem vier à Áustria e apenas se ficar pela capital ou meios citadinos dificilmente perceberá o modo de vida dos austríacos. Olhar em redor para os vinhedos, os canteiros cuidados, os espaços dedicados às crianças, as inúmeras árvores, muitas delas damasqueiros, usadas na cozinha do restaurante ou para fazer Marillennektar percebe-se que a qualidade de vida é algo fundamental para estas pessoas.


Weingut Josef Jamek GmbH
Josef Jamek Straße 45
A-3610 Joching
Wachau, Österreich

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