24 de outubro de 2018

Quinta da Lagoalva de Cima

A 11 quilómetros de Santarém, a Quinta da Lagoalva de Cima é uma quinta de produção agrícola de referência nacional. Num ambiente campestre, proporciona visitas pelos campos agrícolas, coudelaria e adega.


É num dia de calor que visito a Quinta da Lagoalva. As indicações por telefone do melhor acesso tinham sido preciosas mas o mau estado do pavimento levou-me a um ligeiro atraso. À minha espera já está a charrete puxada pela Wenga, égua da raça Percheron, para darmos início à visita.
Faz todo o sentido começar por uma ida ao campo, já que este é o seu principal core business. A Quinta da Lagoalva é uma quinta de produção agrícola. Atualmente na posse da família Campilho, esta propriedade tem 660 hectares, apesar de existirem terrenos noutras regiões do país. Destes campos férteis, dada a proximidade ao Tejo, saem vários produtos: nozes,amêndoas, batata, milho, ervilha, azeite (olival de sistema intensivo e tradicional) e vinho, claro. Na zona da Charneca, com solos mais secos, produzem-se as castas tintas e a zona da Lezíria é destinada às brancas. A vindima tanto é mecanizada como manual e normalmente é feita durante a noite, dadas as elevadas temperaturas diurnas, o que leva a uma rápida oxidação das uvas.
Nos cerca de 200 hectares de montado, há um sobreiro que se destaca. Tem quase 400 anos e produz 850 quilogramas de cortiça, o que equivale a 142 mil rolhas. 


À medida que avanço, vou-me cruzando com algumas mulheres que estão a trabalhar no campo. Além do feitor, aqui só trabalham mulheres, que já chegaram a ser 80. Fazem tudo o que é necessário: podam, desfolham, vindimam, rotulam, engarrafam. A estrada nacional veio dividir a Quinta da Lagoalva mais ou menos a meio. Do lado de cá vemos algumas ovelhas (cerca de 600) apesar de elas serem 3000. Ajudam também a adubar a terra, evitando o uso de fertilizantes artificiais. As restantes estão do outro lado da estrada, onde fica a floresta de eucaliptos, sobreiros e pinheiros e onde há mais sombra para se protegerem do calor. Por altura da tosquia, cada animal deu quase 3 quilogramas de lã, o que no total vai dar mais ou menos 9000 quilogramas.
O olival mais antigo foi plantado pelo trisavô da atual geração e tem quase 200 anos. Aqui todo o trabalho é manual. Destas azeitonas das variedades Frantoio e Moraiolo saem cerca de 3000 quilogramas por hectare que estão na origem do azeite Quinta da Lagoalva.
Regressamos novamente aos edifícios da quinta. Os pórticos têm alguma imponência e era daqui que saíam os carros de bois carregados com água para a agricultura. A grande nora fica mesmo em frente e impõe-se neste espaço que lembra um pouco um claustro.
A razão é simples: desde o século XII ao século XIX a quinta pertenceu à ordem de cavaleiros religiosa Santiago da Espada. Só no século XIX foi adquirida pelo 2º Duque de Palmela. À sua morte, a quinta passou para a sobrinha, Dona Isabel Juliana. Sendo mulher, havia restrições na gestão, por isso reuniu uma equipa de três homens para a ajudarem. Começou por plantar vegetais, seguiram-se árvores de frutos e em 20 anos transformou a Quinta da Lagoalva na maior quinta agrícola do país. Despeço-me do senhor Zé, agradecendo o agradável passeio pelo campo. A Wenga também regressa ao fresco, já que o dia é de calor. 


Encaminho-me para o picadeiro, onde um dos cavalos está a ser treinado. Ninguém faz barulho. Aqui treinam-se cavalos para tauromaquia, atrelagem de competição e lazer. Este espaço é também de exposição. Aqui pode-se ver a sela onde Dona Isabel Juliana montava, uma sela para duas crianças, uma pequena charrete e vários chocalhos. 



A quinta está em linha reta a 800 metros do rio Tejo. O portão era a porta de entrada e saída, já que tudo chegava através de barco. Hoje moram apenas seis famílias mas já chegaram a ser 40 (cerca de 100 pessoas). Além da casa da família Campilho onde alguns dos seus elementos continuam a habitar, havia um conjunto de infraestruturas de apoio às necessidades diárias: casa do pão (com forno comunitário, recuperado recentemente e utilizado para workshops), sociedade recreativa (onde se faziam as festas e que tinha uma televisão a preto e branco), escola, casa das sopas (onde os meninos almoçavam), a barbearia e a nora de água. A capela está inserida na casa de família. A Nossa Senhora do Leite é a mais bem conservada do nosso país, uma homenagem às mulheres que criavam os filhos dos outros através da amamentação. Estão também expostas fotografias da passagem de Nossa Senhora de Fátima pela Lagoalva, após a sua coroação em 1946, quando andou em procissão pelo país. 


A visita termina na sala de provas, onde são dados a conhecer alguns dos vinhos aqui produzidos, a cargo do enólogo Diogo Campilho, assim como enchidos e azeite. 



Sociedade Agrícola da Quinta da Lagoalva de Cima, S.A. 
Quinta da Lagoalva de Cima 
2090-222 Alpiarça | Portugal

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