17 de setembro de 2018

Pesca: um elogio ao mar

Aberto há um ano, o Pesca é dos restaurantes mais carismáticos da actualidade lisboeta. Diogo Noronha aposta nos produtos do mar para criar memórias gastronómicas nos que procuram “tudo menos o óbvio”.


Chego ao Pesca às 20h20. Tinha previamente ligado para reservar mesa mas o meu pedido para as 20h00 foi recusado.
-Pode ser para as 20h30?
Ninguém me explicou o motivo e eu também não perguntei, mas perante menos de 10 pessoas no restaurante, não entendi a recusa.
A recepção foi de enorme simpatia, incluindo todos os elementos presentes na cozinha aberta que cumprimentam os clientes à passagem.
Conduzem-me até ao pátio com uma pérgula retráctil e muitas plantas. Talvez a inspiração tenha vindo do Jardim Botânico vizinho mas por estar tapado lembra-me mais a Estufa Fria. Os estores estão abertos mas como este dia de verão mais parece outono, acabam também por os correr e o ambiente fica mais agradável. Os azulejos Viúva Lamego, as cadeiras em madeira e os sofás conferem o conforto necessário para o repasto. Nas mesas continua a não se dar preferência ao uso de toalhas, apesar dos talheres estarem sobre um pequeno suporte e não directamente no tampo.
É sugerido o menú de degustação para uma experiência mais completa e também alguns pratos caso a opção seja a escolha à carta.
Das várias boas memórias prestes a criar, a primeira chega com o pão, a cargo do chef pasteleiro Clayton Ferreira, feito a partir de massa-mãe e com recurso a quatro tipos de farinhas. É um pão impressionante pela sua textura muito macia e côdea estaladiça. Foram também servidos grissini e um requeijão com pó de alface do mar. Gostei em particular do seu toque salgado.


Sem grande demora chegou também à mesa o amuse-bouche: uma brandade de bacalhau com azeitonas e alcaparras. Segui a sugestão e engoli esta food-finger de uma só vez.
Já conhecia o trabalho do chef Diogo Noronha do Rio Maravilha e do ambiente tranquilo que se vive na cozinha. Aqui, bem perto, vejo que se mantém.
Passou-se à escolha dos vinhos. Uma vez mais, fiquei impressionada pela selecção que contempla opções nacionais (Douro, Bairrada, Colares, Dão) e internacionais (Itália, França e até Áustria). Optou-se por um Ribeiro Santo Encruzado branco, um dos vinhos mais emblemáticos de Carlos Lucas e representativos da região vínica do Dão.
Decidi pela escolha à carta. O meu pregado na brasa com piso do mar, beringela assada, acelgas e nage de tamarindo (30€) veio exactamente no ponto que pedi. Não sendo de todo uma apreciadora do tamarindo pelo seu sabor forte, acabei por sentir falta de um elemento que fizesse a ligação e equilibrasse a presença do pregado, apesar das acelgas estarem excepcionais.


Provei também o lombo de bacalhau e sapateira com mouseline de queijo terrincho, nabos, brocolinis e citrinos (25€) que foi mais de encontro ao meu palato, com sabor mais repartido.


Para sobremesa escolhi uns seixos de amêndoa, framboesa e baunilha, bagas silvestres, sorvete de morango e anise (11€). Além da apresentação harmoniosa e elegante, o equilíbrio dos sabores estava perfeito. Uma das grandes vantagens de se trabalhar com o produto da época, respeitando o ciclo da natureza. Para finalizar, petit fours de chocolate e laranja.


Quanto ao serviço, foi exemplar a vários níveis: apresentação, conhecimento da carta, serviço de vinhos e simpatia.
O mais recente projecto de Diogo Noronha mostra a sua irreverência em apostar na diferença. Inovador mas sem esquecer a tradição e sustentabilidade, a cozinha do Pesca pode primeiro estranhar-se mas depois percebe-se todo o conceito. Aqui o mar e a terra caminham lado a lado, brilhando em conjunto.

Pesca
Rua da Escola Politécnica, 27
1250-099 Lisboa

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