5 de setembro de 2018

Herdade do Rocim

Localizada entre a Vidigueira e Cuba, a Herdade do Rocim prima pelo respeito ao terroir. Destes solos arenosos e franco-argilosos saem vinhos frescos e minerais mas também representativos de um património cultural com mais de 2000 anos. A nova enologia associada a conhecimentos ancestrais voltou a apostar nos vinhos de talha.

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Todas as adegas que visito têm sempre uma história por detrás. Falaram-me da Herdade do Rocim durante a minha estada no Convento do Espinheiro. Todas as tardes, na antiga cisterna, os hóspedes são convidados para uma prova de vinhos do Alentejo e um dos escolhidos foi o Herdade do Rocim Tinto 2013. Também esteve em prova um vinho de talha de outra adega mas o escanção Cristiano Santos falou-me que o Rocim também os produz. A oportunidade de os provar surgiu agora durante uma viagem até ao Algarve.
São 11 horas da manhã e o calor é implacável. O edifício projetado pelo arquiteto Carlos Vitorino e inaugurado em 2007 fica um pouco acima do parque de estacionamento, bem enquadrado na paisagem. À medida que vou subindo, começa a evidenciar-se, por entre alguma vegetação.
Acompanhada pela Sílvia e Inês, vou até à vinha pedagógica, onde se inicia a visita. Nesta espécie de terreno de ensaio está uma amostra das castas produzidas nos 70 hectares dos 120 que constituem a Herdade do Rocim. Viosinho, Petit Verdot, Tannat, Trincadeira, Alicant Bouchet, Touriga Nacional, Syrah, Alvarinho ou Antão Vaz são alguns dos exemplos mas nas vinhas há também Perrum, Rabo de Ovelha, Mateúdo ou Moreto.

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Quando José Ribeiro Vieira, pai da enóloga Catarina Vieira, adquiriu esta propriedade, já existia vinha, com uma mescla de castas (como era próprio antigamente) e que hoje fornecem as uvas para alguns vinhos específicos, como os de talha.
Dos 15 hectares de olival sai a matéria-prima para o azeite virgem extra da Herdade do Rocim, atualmente produzido em Beja.

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Regresso ao interior, onde está bem mais fresco, muito diferente dos 40ºC que já se fazem sentir.
Na receção estão expostos alguns dos prémios recebidos de várias entidades, com especial destaque pelo Olho de Mocho e Grande Rocim. Além do consumo em Portugal, estes vinhos chegam à China, Brasil, Angola, EUA e Canadá.
Na zona dos depósitos em inox já se prepara a próxima vindima. Por norma, ocorre na segunda semana de Agosto mas este ano, devido às condições climatéricas, a produção está um pouco atrasada. A vindima é feita manualmente e durante o dia. Depois de colhidas, as uvas são colocadas durante 12 horas na câmara frigorífica e só depois passam para o tapete vibratório onde é feita a última escolha. Depois são prensadas nos depósitos de inox e consoante o destino final, algumas passam por tonéis de carvalho francês.
Junto ao laboratório fica a sala de provas, onde os enólogos Catarina Vieira e Pedro Ribeiro, parceiros também na vida, provam todos os vinhos. A vista para a vinha de Touriga Nacional poderá dar alguma inspiração.
Um vidro separa a sala polivalente (usada para eventos, colóquios, enólogos por um dia, reuniões) da sala de barricas de carvalho francês e americano, onde estagiam os vinhos.
As melhores uvas são pisadas no lagar de pedra. Por aqui passam o Grande Rocim Doc Reserva ou o Herdade do Rocim Clay Aged.

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Apesar do vinho de talha ter uma tradição com mais de 2000 anos no Alentejo, desde o ano passado a sua produção teve um aumento significativo. Aqui estão apenas expostas 6 talhas, já que a sua maioria se encontra noutro local. Já estão preparadas para receber o fruto da próxima vindima.

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Seria redutor dizer que a prova é o melhor momento, especialmente numa adega como esta, com companhia simpática, espaço muito agradável, muita luz natural e obras de arte para conhecer à medida que se avança.
O bar é sem dúvida dos espaços mais agradáveis, onde além das provas, é também possível tomar uma bebida, almoçar e jantar (mediante orçamento). Aqui estão expostos alguns dos vinhos da Herdade do Rocim: Vale de Mata, Olho de Mocho, Grande Rocim e Mariana. É por este que inicio a prova.

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Este vinho é uma homenagem a Mariana Alcoforado, uma freira que nasceu em Beja em 1640 e que se enamorou pelo oficial francês Noel Bouton. Após ter sido abandonada por este, relata n’As Cartas o seu desamor e triste sorte.
Iniciou-se com um Mariana Branco 2017, feito a partir das castas Antão Vaz, Arinto e Alvarinho que se apresentou muito fresco, frutado no nariz e com pouca acidez.
Já o Mariana Rosé é um vinho distinto pela sua cor mais pálida e menos rosada que os outros rosés.
Passou-se para o Amphora Branco 2017, feito a partir das castas Antão Vaz, Perrum, Rabo de Ovelha e Mateúdo. Cor dourada evidente, fresco e com final de boca longo.
Já o Olho de Mocho Reserva Branco 2017, um monocasta Antão Vaz, bem típico da região, revelou-se extremamente frutado e com alguma mineralidade.

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Seguiu-se para o Amphora Tinto 2017, feito a partir das castas Moreto, Tinta Grossa, Trincadeira e Aragonez. Se o branco não me tinha impressionado, este tinto é claramente uma vinho distinto, fresco, suave e muito equilibrado.

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O Olho de Mocho Reserva Tinto 2015, feito a partir das castas Alicante Bouschet, Tinta Miúda e Petit Verdot é um vinho com outra estrutura. Estagiou em barricas de carvalho francês durante 16 meses, com taninos bem presentes.
Todos estes vinhos foram acompanhados por uma seleção de queijos e enchidos, assim como pão alentejano e o azeite virgem extra da Herdade do Rocim feito a partir da variedade Cobrançosa. Cor esverdeada, pouca acidez e aquele ligeiro picar próprio dos grandes azeites.

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Termino a visita na loja. É aqui que me falam do vinho mais emocional, o Crónica 328. Catarina Vieira presta uma homenagem ao seu pai, José Ribeiro Vieira, que infelizmente não chegou a escrever esta última crónica para o Jornal de Leiria.
Lembrei-me de imediato de um comentário que ouvi quando visitei Saint-Émillion.
–Porque é que vem aqui tanta gente? É apenas vinho.
Não podia estar mais longe da verdade. São vivências, memórias, amor e gratidão.

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Herdade do Rocim
Estrada Nacional 387 Apartado 64
7940-909 Cuba
rocim.pt

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