14 de junho de 2018

Siena, a magnífica

Da Piazza S. Domenico, Siena parece uma imagem editada. Contornos definidos, cores vibrantes, luz perfeita. Mas é apenas Siena ao natural, sedutoramente irresistível.


Sempre achei os italianos um povo ímpar. Não conheço outro que esteja mais familiarizado com a cultura, a harmonia, o luxo e a excentricidade. Basta saírem à rua para estarem perante o belo, seja na arquitetura, nas obras de arte, nos automóveis, na moda. Foi nisto que pensei quando vi pela primeira vez, ao longe, o casario de Siena com a Torre del Mangia a evidenciar-se. Senti um certo cosmopolitismo mas sem nunca esquecer que estou em Itália.



É muito fácil perdermo-nos em Siena, tal é o número de vicolos e ruelas, algumas escuras e íngremes. Em muito locais, lembra-me os bairros de Lisboa. Os turistas parecem sair dos lugares mais improváveis mas parecem todos convergir para o mesmo.


Durante anos, Siena rivalizou com Florença e quando chego à Piazza S. Giovanni percebo porquê. No grande banco de pedra, onde alternadamente se vão sentando os transeuntes, a imagem da fachada do Duomo de inspiração gótica é arrebatadora. Em Itália, são muito os lugares onde é possível perder o fôlego. Este é um deles.
Mas este fôlego nunca se recupera verdadeiramente, já que o melhor parece estar sempre para vir a cada instante que se avança. Os grandes arcos, a cúpula ou os mosaicos no Duomo são imperdíveis, a Biblioteca Piccolomini consegue emocionar os corações mais empedernidos, o Battistero di San Giovanni ostenta uma belíssima fonte batismal e Museu dell'Opera del Duomo guarda o imponte vitral original do Duomo. Por tudo isto, para mim, este conjunto de monumentos é “o” Duomo da Toscana.




A Piazza del Campo além de grandiosa, é majestosa. Em tijolo colocado em espinha, estende-se desde a Fonte Gaia, a primeira fonte pública de Siena, até à Torre del Mangia. É a sala de visita da cidade, com gente noite e dia, onde se observa, partilha, convive. Apesar de tudo, é um lugar de algum “silêncio”.




Talvez pela sua altura respeitosa, não opto por  subir os 400 degraus mas não deixo de conhecer o Palazzo Pubblico. Também é preciso subir, mas as escadarias são largas e vão-se fazendo pausas nos vários andares. É que a beleza é mesmo algo constante em Itália e todas as salas merecem uma paragem de longos minutos. Há quem lhe chame slow travel. Eu chamo-lhe ver com o coração. Queria muito ver as obras-primas de artistas de locais, em especial os frescos de Ambrogio Lorenzetti.


Numa feira de produtos gastronómicos provei um dos melhores azeites portugueses, muito cru, como eu gosto. Esse produtor falou-me que costuma participar em concursos, mas que nunca consegue vencer, porque, segundo ele, “os italianos limpam aquilo tudo”. Já tinha previsto trazer alguns produtos de Siena e perguntei no hotel onde podia adquirir um bom azeite. Recomendaram-me o  Consorzio Agrario di Siena, um paraíso para os gourmands. É uma espécie de farm to table, já que os produtos enogastronómicos aqui comercializados, incluindo refeições prontas a comer, vêm diretamente de produtores certificados. Aqui o embaraço é mesmo o da escolha.


Tinham-me recomendado o Ristorante Guido, no Vicolo Pier Pettinaio, próximo da Piazza del Campo. A primeira impressão é de um regional com bom gosto (e boa comida). As paredes estão repletas de fotografias com celebridades que por aqui já passaram, como que a dar crédito a quem já o tem. Iniciei com um tagliolini rossi con carciofi e pancetta (não tinha uma apresentação tão bonita como os capelettis mas o sabor estava lá). Seguiu-se um ossobuco di vitellone con scalogno confit apesar de me sugerirem a bistecca fiorentina. Termino com uns cantucci ligeiramente embebidos em Vin Santo, como manda a tradição toscana.
À noite Siena fica deserta. As ruas que durante o dia popularam de gente estão agora desertas. Na Piazza Salimbeni, rodeada de antigos palácios, fico um pouco a pensar como foi o dia.


1 comentário:

  1. Adorei este post, que me levou de volta à bela e magnífica Siena...Que saudades! Concordo mesmo muito com a tua perspetiva desta bela pérola toscana e partilho do teu encantamento. Muitos parabéns também pelas fotos ;)

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