19 de dezembro de 2016

Quinta Madre de Água: um caso de amor

Ele tem uma paixão pelo vinho, ela rende-se aos animais. Luís e Lurdes Perfeito adquiriram a Quinta Madre de Água e transformaram-na numa genuína experiência campestre.

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A Quinta de Madre de Água é dos lugares mais especiais que conheci este ano. Num ambiente de campo juntou-se a arte de bem receber beirã, vinhos das melhores vinhas do Dão e um dos principais queijos do país. A boa notícia é que é possível dormir na quinta e comer no seu sofisticado restaurante.
A chegada é logo diferente. É o Amarelo quem me acompanha, enroscando-se sucessivamente nas minhas pernas até que me baixe e o afague. É apenas o primeiro das centenas de animais que irei ver durante a minha estadia.
Para que esta experiência de campo seja o mais real possível, faço uma visita com a Vanessa Santos. E nada melhor do que começar junto à vinha mais antiga da quinta, plantada em 1989. Na altura não havia a preocupação de a organizar, misturando-se castas tintas e brancas. No entanto, fazem questão de a manter dada a qualidade das uvas. A vinha está na fase da pré-poda, uma das poucas em que se usa maquinaria.

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À original Quinta de Madre de Água juntaram-se mais três que constituem os 60 hectares totais. Na Quinta da Regada estão as que pelo quarto ano consecutivo são consideradas as melhores vinhas do Dão. Atualmente os vinhos são feitos em Penalva do Castelo mas a antiga casa do Engenheiro Grangeio, na Quinta da Caramuja, vai ser recuperada e transformada em adega.
Uma das primeiras coisas que me desperta a atenção na quinta são as várias casinhas de pássaros. A Vanessa explica-me o motivo da sua existência:
– Na Quinta de Madre de Água não usamos químicos nem pesticidas. É uma quinta biológica.
Sendo muito rica em água, com cerca de nove poços, é propícia ao desenvolvimento de mosquitos associados à  leishmaniose. Para controlar eventuais pragas causadoras de doenças nos mais de 60 cães existentes, espalharam-se casas de pássaros onde se coloca comida, criando a habituação de se alimentarem lá. Paralelamente, acabam por comer os mosquitos, controlando-os de forma natural. Outra vantagem é que se estiverem alimentados, haverá menos probabilidade de picarem os bagos e danificarem as uvas.

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Avançamos até à cerca eletrificada, onde num espaço generoso, andam as éguas. O Lúcifer foi o primeiro potro Madre de Água mas dentro de poucos meses nascerão mais quatro. Estas puro sangue lusitano têm regras quanto à colocação dos nomes mas apenas a Donadela mantém o original. À Gineta, Flama e Fantasia substituiu-se por nomes de rainhas de Portugal: Matilde, Inês e Leonor.

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Encontro o Ezar no seu período de sesta. Todo preto, é para mim o mais bonito. Tem uma manta para o proteger do vento frio que se sente. O cavalo lusitano tem um tratamento diferente: o banho é com água tépida para ajudar o músculo a relaxar, seguido da colocação de uma manta que o massaja e ajuda a retirar a humidade da pelagem.
Mas na Quinta de Madre de Água não há apenas cavalos lusitanos. O Irish e o Jackie são muito pachorrentos, ideais para as aulas com as crianças no picadeiro.  Já o Bretão, com cerca de uma tonelada, impõe respeito pelo seu porte. Responde rapidamente ao apelo da Vanessa que carinhosamente o afaga. Talvez esta seja a melhor forma de lidar com a energia dos vários cães com que divide o espaço. A Lima, a Flôr e a Luana vêm ao nosso encontro e recebem-nos com um grande abraço. Há vários Serra da Estrela com o seu ar dócil.

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Do lado oposto estão os restantes canis. O Salgueiro, o Mandela, a Faia, a Papoila, o Lotus, o Piorno, a Acácia ou o Gaspar são apenas alguns dos animais que foram recolhidos pela Lurdes e aqui vivem felizes nos dois hectares onde podem correr e brincar livremente.

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Despeço-me destes animais (vou ainda ao galinheiro apesar de não ver a Chica, a tartaruga que apareceu na quinta na vindima de 2014) e com o Mimi no meu encalço, regresso à pick-up. Pelo caminho são várias as árvores, cuja fruta é usada para as compotas Quinta de Madre de Água. Há macieiras, pereiras, amendoeiras, cerejeiras centenárias, tílias, medronheiros mas o diospireiro é realmente impressionante.
Ao entrar na Quinta de Santo António começo a ver o olival com cerca de 3000 oliveiras. Aqui apenas se colhe a azeitona uma semana antes do Natal. Quanto mais tempo estiver na oliveira, menos acidez terá. O resultado é um azeite leve na boca mas intenso de aroma.
À entrada do cabril, a Farrusca e o Freixo descansam nas suas casotas. Lá dentro, o senhor Simão ajuda o Zé Pedro a alimentar-se. São cerca de 100 cabras mas também há algumas com nomes, como a Mimosa, a Bate Palmas ou a Rita.

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Este ano plantaram-se cardos junto da Queijaria Madre de Água. São um dos elementos chave na produção dos queijos, uma vez que não é usado nenhum coagulante. Apesar de se usar alguma maquinaria, o queijo é ainda amassado manualmente. Além do queijo de cabra e do requeijão, produz-se queijo Serra da Estrela Dop. Depois, há para vários gostos: o amanteigado demora entre 45 dias a 60 dias, o de cortar à fatia já necessita de 90 dias. Se estiver mais tempo, entra na fase de cura e fica mais seco e intenso. É também o meu favorito.

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Para que o queijo Serra da Estrela seja certificado só se pode trabalhar com duas raças de ovelhas: a churra mondegueira ou a bordaleira. Na Quinta Madre de Água  há mais de 400 ovelhas bordaleiras. A esta hora estão apenas os borregos, que dada a sua idade, não vão para o pastoreio. Tanto no cabril como no ovil há grandes cuidados de higiene. Todos os dias a palha é mudada mas além disso, há uma camada de terra e várias camadas de protetores e absorventes para evitar a contaminação de solos. A preocupação com o bem estar animal é enorme, não só a nível alimentar, como de saúde. À entrada da ordenha é analisado o estado geral dos animais, incluindo os cascos, se têm pieira e se necessitam de limpeza em caso de contaminação.

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Enquanto o senhor Jorge termina os preparativos, já as ovelhas se encontram à entrada, impacientes. Assim que a cancela abre, entram em fila e colocam-se nos seus lugares. Conta-me a Vanessa que algumas têm lugar cativo.
Entram 24 ovelhas de cada vez mas apenas são ordenhadas 12, que se vão alternando para não esforçar o úbere. Enquanto são ordenhadas recebem um suplemento alimentar. A melhor ovelha da quinta produz dois litros e meio de leite mas são necessários cerca de cinco para produzir um queijo. Devidamente equipada, ainda faço uma tentativa de ordenha, que como seria de esperar, não corre pelo melhor. Não é que seja difícil mas basta não colocar bem a tetina para que a extração não seja correta. E claro, como não podia deixar de ser, algumas também têm nomes: há a Vanessa, a Salomé, a  Joana e a Benvinda.

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No dia seguinte e após um pequeno almoço que tão cedo não irei esquecer, dou mais um passeio pela quinta, desta vez sem a companhia da Vanessa. A cada encontro com os animais penso como aqui vivem felizes. É impossível sair indiferente de um lugar onde são tratados com tanto respeito, carinho e dedicação, sempre com o seu bem estar em primeiro plano. E principalmente, com um amor genuíno.

Quinta Madre de Água
Vinhó, 6290-651 Gouveia
quintamadredeagua.pt

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