5 de outubro de 2016

Um dia de vindimas na Quinta de Lemos

Na região vinícola do Dão, a Quinta de Lemos destaca-se pela produção de vinhos de elevada qualidade a partir de castas tradicionais.

Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Desde criança que sempre participei nas vindimas do meu pai. Ia pela manhã, de tesoura na mão e um pequeno balde que queria rapidamente encher. Preocupava-me ser picada pelas vespas que atraídas pelo açúcar das uvas, andavam sempre por perto. Com os estudos e posteriormente o trabalho fui deixando de o fazer, com alguma pena, confesso. Este ano quis voltar a essa experiência e nada melhor que no lugar onde cresci. Há muito que desejava conhecer a Quinta de Lemos e a Festa das Vindimas no Dão foi a oportunidade certa.
Voltar a percorrer aquela estrada de curvas recordou-me as idas a Viseu em criança, quando o IP3 ainda não existia. A paisagem beirã pode ser tristonha no inverno mas neste dia de sol, com a luz a incidir sobre o granito, trouxe-me muitas memórias felizes. Abrando um pouco e abro o vidro. Quero sentir o cheiro dos pinheiros e eucaliptos.
Sou a primeira a chegar. Há alguma azáfama própria de um dia de trabalho, com os tratores já prontos. Deixo tudo o que não necessito e visto uma t-shirt de um algodão muito macio  e um branco imaculado, apenas com o símbolo da Quinta de Lemos. Sentada nas escadas, com os vinhedos a perder de vista, oiço apenas o chilrear dos pássaros.

Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
O enólogo Hugo Chaves conduz-me às vinhas, enquanto explica como começou este projeto. A aquisição dos terrenos deu-se em 1997 com um objetivo muito claro: produzir vinhos de elevada qualidade que pudessem ladear com os melhores do mundo. Procedeu-se à replantação total das vinhas, bastante densas, com orientação norte-sul, permitindo-lhe uma melhor absorção de energia térmica.

Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
A região do Dão depara-se anualmente com a questão das chuvas de finais de Setembro, que podem provocar danos significativos nas uvas. Apesar das tarefas serem as mesmas todos os anos, os timings variam, já que a Mãe Natureza é soberana. Tem de se aguardar pela maturação fenólica certa, de modo a produzir vinhos equilibrados e não com teor alcoólico elevado.
Este ano já se vindimou as castas Jaen, Tinta Roriz e o Alfrocheiro. Hoje vamos colher a Touriga Nacional. Não existem uvas misturadas com a folhagem mas caídas ao nível do arame. Cada videira tem cinco cachos, salvo raras exceções. Hugo Chaves demonstra a forma correta de vindimar. Pega-se no cacho por baixo (e nunca junto ao pedúnculo), corta-se e coloca-se com cuidado nas caixas de plástico, de modo a não danificar a película.

Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Em grupos de dois, damos início aos trabalhos. A ideia é divertir-me e lá vou vindimando devagar. Oiço o riso das crianças que picam os mais velhos para que se apressem. Há um despique para ver quem termina em primeiro. Gosto particularmente de saber que uns carreiros ao lado há algumas senhoras na “vindima real” e é a elas que presto atenção. Apesar de estarmos no Dão, cantam “Fui ao Douro às vindimas”.

Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Regresso ao edifício principal da Quinta de Lemos para perceber a continuação do processo vinícola. Passo pela sala das cubas de inox termorreguláveis e pelo laboratório que permite uma total autonomia na análise do vinho.
Mas estas vindimas não estariam completas se não houvesse uma pisa no lagar. Sinto que é o momento por que muito aguardam. Tenho pena de não participar por estar adoentada. Ao ver as várias crianças, recordo-me de quando o fazia com o meu pai. Primeiro lavava-me muito bem os pés e as pernas, depois pegava-me ao colo e colocava-me dentro do lagar. Achava-o muito alto e ao início tinha medo. Mas é tudo uma questão de persistência e ao fim de algum tempo ganha-se confiança.
Dobram-se calções, auxilia-se com as mãos sempre que necessário e erguem-se os joelhos numa espécie de marcha. Assim se ajuda a fazer o Alfrocheiro 2016. A este grupo animado junta-se o anfitrião, o senhor Celso de Lemos e família, que nos presenteia com a sua simpatia.

Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Depois de uma manhã muito bem passada nas vindimas é tempo de recuperar energias. Espera-me um almoço que me fez novamente recuar no tempo. Foi há mais de dez anos que comi rancho, um prato muito saboroso e retemperador. Mas não faltam outras sugestões que me recordam as merendas que antigamente se serviam nas pausas da lavoura: as sardinhas, os enchidos, o bacalhau frito, as azeitonas ou os pastéis de bacalhau. Tudo pratos ideais para reconfortarem o corpo do desgaste do trabalho. O dia quente permite almoçar na varanda, um espaço realmente extraordinário de onde não apetece sair. Tento abstrair-me da alegria circundante e desfrutar da paisagem da Beira com um Dona Santana 2006. A acompanhar o pão de ló com queijo da serra serviu-se um espumante feito a partir de Touriga Nacional e Encruzado que se revelou surpreendente.

Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
No final impunha-se uma caminhada até à parte mais alta da quinta onde se localizada o restaurante Mesa de Lemos. Se no exterior fico rendida à vista em declive para as vinhas, quando entro a elegância do espaço conquista-me por completo. É um lugar a conhecer tão breve quanto possível.

Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Quinta de Lemos, Rota dos vinhos do Dão
Quinta de Lemos
Passos de Silgueiros

3500-541 Silgueiros
www.celsodelemos.com

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