1 de fevereiro de 2016

Xico Tarefa: o oleiro naïf

Chama-se Francisco Rosado mas é conhecido por Xico Tarefa. Mantém viva a louça tradicional do Redondo.

Francisco Rosado, Xico Tarefa, oleiro Redondo, louça tradicional do Redondo
Tenho um especial carinho pela olaria. O meu avô era oleiro e na casa dos meus pais existe muita louça. Passei o aniversário do meu pai no Alentejo e pensei fazer-lhe uma surpresa. Já tinha visitado o Redondo e o Museu do Barro, por isso conhecia a tradição da terra. Mas não há como ouvir de quem faz, por isso contactei o Xico Tarefa para me falar do seu trabalho. Mostrou logo uma enorme simpatia e abertura. Ficou agendado para Domingo de manhã.
– Bom dia. Senhor Francisco! Senhor Francisco!
Mas não obtenho resposta. Regresso ao passeio e espreito. Apercebo-me pela agitação junto ao café próximo que é lá que se encontra. Não há problema em deixar a oficina aberta e sair por momentos. Aqui é tudo boa gente e ninguém vem por mal.
É neste espaço que cria as suas peças. Há olarias maiores, a recordar os tempos em que a louça era cozida em forno de lenha e que era necessário espaço para a armazenar. Os fornos também eram maiores e a louça era sobretudo utilitária, de dimensões superiores.
Já se atualizou em relação ao antigamente. Os fornos – os dois “ladrões” – e a roda são elétricos, o que em nada altera o trabalho artesanal.
– O que interessa são as mãos e a cabecinha. – explica Xico Tarefa.

Francisco Rosado, Xico Tarefa, oleiro Redondo, louça tradicional do Redondo
A louça é sempre cozida duas vezes. A primeira demora cerca de 7 horas a uma temperatura superior a 900ºC. Depois leva o vidrado e volta ao forno. Mas isto é como na cozinha: é preciso conhecê-lo bem e adaptar ao espaço. O que é importante é que o calor circule livremente.
– Não pode ficar aperreado. – que é como se diz no Alentejo.

Francisco Rosado, Xico Tarefa, oleiro Redondo, louça tradicional do Redondo
Faz dois tipos de louça: a decorativa e a utilitária, se bem que esta em menor quantidade porque não é rentável. Ocupa mais espaço no forno e tem menos procura. Muitas vezes faz por encomenda.
Na louça decorativa não se restringe a um tipo. Xico Tarefa explica a razão:
– No Algarve até os cães e os gatos têm de falar inglês.
No momento da minha visita está a trabalhar numa linha decorativa que adaptou dos bordados de Viana.

Francisco Rosado, Xico Tarefa, oleiro Redondo, louça tradicional do Redondo
No piso superior tem exposto o seu trabalho. O meu olhar foge logo para a louça tradicional do Redondo. É fácil de identificar pela simplicidade decorativa. São representações da fauna e flora, com recurso a quatro cores: amarelo, verde, vermelho e branco. Chama-lhe pintura naïf mas o que faz é respeitar ao máximo a influência da “diva da olaria”: a Tia Rita. Xico Tarefa fala com admiração da harmonia do traço, do brio e da singularidade das figuras que parecem ter vida. Trata estas peças com especial cuidado, a que eu acrescento, carinho.
– Nem todos gostam ou entendem a minha louça. Alguns até pensam que é uma inovação mas estes desenhos são muito antigos. Só compra quem conhece.

Francisco Rosado, Xico Tarefa, oleiro Redondo, louça tradicional do Redondo, pintura naif
Francisco Rosado, Xico Tarefa, oleiro Redondo, louça tradicional do Redondo, pintura naif
Francisco Rosado, Xico Tarefa, oleiro Redondo, louça tradicional do Redondo, pintura naif
O momento mais difícil foi escolher um prato para levar. Bem que pedi ajuda, que me indicasse um especial, mas não há “filhos preferidos”. Pego, coloco na prateleira, volto atrás. O tempo passa e tenho de me decidir. Acabo por descer com o que tem um cesto. Entrego-o a Xico Tarefa que me abre um sorriso e mostra a capa de um livro com essa imagem. Parece que há mais a conhecer, gostar e acima de tudo, valorizar.

Olaria Xico Tarefa
Rua João Anastácio da Rosa, 4
7170-062 Redondo

2 comentários:

  1. Tenho dois pratos deste senhor que comprei em loulé. adoro-os!

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  2. Olá Ana: mais um motivo para quando for no Redondo passar na oficina do Xico Tarefa.

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