13 de janeiro de 2016

Rota tons de mármore

Surge em estado bruto mas após polido, transforma-se numa pedra ornamental de grande nobreza. O mármore português, também conhecido como ouro branco, é dos melhores do mundo.

Rota Tons de Mármore
Quando visitei Vila Viçosa pela primeira vez reparei que a paisagem era fortemente caracterizada por um conjunto de gruas, a lembrar as explorações de petróleo. Sabia da sua estreita relação com o mármore e já de regresso a casa, resolvi espreitar uma pedreira desativada. O abismo era assustador e o impacto foi tão forte que aquela imagem ficou-me todo este tempo na memória. Mas o medo quer ser conquistado e quando no fim do ano passado regressei a Vila Viçosa marquei uma visita guiada. À hora combinada encontro-me com o Luis Martins no Terreiro do Paço. Feitas as apresentações, é dada uma pequena introdução, explicação das normas de segurança e distribuição dos capacetes e coletes refletores.

Rota Tons de Mármore; Pedreira do Mouro
Não é marketing barato afirmar que o mármore português é do melhor do mundo e o mais cobiçado é o cor de rosa. É de tal forma especial que quando é polido fica translúcido, deixando-se atravessar pela luz. Por ser abundante em vários concelhos alentejanos, é usado num sem número de construções mas Luis Martins destaca três: a fonte das bicas, em Borba, o Paço Ducal de Vila Viçosa e a torre de menagem de Estremoz.
Antes da crise chegar, as cidades que viviam da exploração do mármore empregam um vasto número de pessoas: os homens trabalhavam nas pedreiras e fábricas e as mulheres faziam tarefas menos duras, como a seleção do mármore. O trabalho era muito à base da força humana mas hoje há pouca gente nas pedreiras. As máquinas fazem quase tudo.
Havia, contudo, um maior risco de a pedreira não ser viável. Sem as tecnologias que hoje existem, era uma incerteza o que se iria encontrar. Começava por se limpar o terreno e ia-se escavando. Só a partir de alguns metros de profundidade é que se começava a detetar o mármore mas isso não garantia nada. Era necessário atestar a sua qualidade. A visita à Pedreira do Mouro, hoje desativada, é um bom exemplo. Olhando para a encosta é perceptivel que o mármore está muito partido, o que inviabilizou a continuidade da exploração.

Rota Tons de Mármore; Pedreira do Mouro
Há muita água subterrânea e como não é bombeada, acaba por se criar um pequeno lago. É junto dele que tenho a noção da profundidade. Descemos cerca de 70 metros e debaixo de água é provável que estejam mais uns 15 metros. Olhando para cima, sinto-me pequena. É uma imensão de silêncio com uma ou outra ave de rapina a fazer-se notar.

Rota Tons de Mármore
Para perceber toda esta transformação do mármore, seguimos para uma fábrica. Há uma pequena plataforma que permite espreitar a exploração. É bem mais profunda que a Pedreira do Mouro e o medo faz-me recuar.

Rota Tons de Mármore
Dentro da fábrica o barulho é insordecedor e todas as explicações são dadas no exterior. Começo por ver o grande bloco de mármore a ser cortado com o fio de aço com partículas de diamante sintético. Já no interior cruzo-me com empilhadores e observo a linha de transformação. O bloco em bruto inicial resulta num bonito ladrilho polido. Quase a totalidade tem como destino a exportação, em especial países do Médio Oriente e China.

Rota Tons de Mármore
Numa boa perspectiva, do que se tira de uma pedreira apenas se aproveita 15%. Há muitas perdas, seja no desmonte (separação do bloco da pedreira), seja no corte já na fábrica. Isso leva a que haja um enorme desperdício e posterior acumulação em cemitérios de escombros, que são também verdadeiros miradouros. A paisagem envolvente lembra outro planeta, repleto de pequenas crateras.

Rota Tons de Mármore
Regresso ao ponto inicial, agora com uma visão completamente diferente sobre esta pedra tão nobre. Defronte do Paço Ducal, olho-o de outra forma e parece-me ainda mais bonito. É tempo de me despedir do Luis Martins, que transformou esta visita num momento de aprendizagem. A sua paixão genuína pelo Alentejo, pela história e tradição é contagiante. Bem disposto por natureza, transmite uma enorme emoção e gosto por estas visitas. Não se limita a mostrar uma pedreira e uma fábrica. Contextualiza-as e dá outros pormenores para pessoas interessadas, como eu, quererem conhecer mais. Fico a saber que os escultores Diogo Germano, natural de Borba, e João Sotero, atualmente com atelier em Arraiolos, são dois exemplos de como o mármore pode ser aplicado em trabalhos artísticos. O ouro branco também já deu tema para um livro. “A Falha” de Luis Carmelo, aborda um passeio a uma pedreira de mármore, em Vila Viçosa, onde um grupo de amigos ficam presos numa gruta. Em 2002, João Mário Grilo adaptou o livro ao cinema.

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