8 de julho de 2015

A cidade medieval de Sarlat-la-Caneda

Sarlat tem um encanto como poucas, seja pelas ruas estreitas, pelos edifícios históricos, pela reputação do mercado e gastronomia de topo.

Praça de la Liberté Sarlat Sarlat-la-Caneda

Por norma, os momentos especiais estão sempre associados à sobremesa. Pode ser um pedido que une duas vidas, uma notícia importante ou um acontecimento que muda o rumo da história.

No fim de degustar a melhor perna de pato em toda a Dordonha, na esplanada da Brasserie Le Glacier, perguntam-me se vou desejar um doce ou café.
– Não, quer dizer, non – corrigi rapidamente.
– É portuguesa ou brasileira? – pergunta-me um rapaz na língua de Camões.
– Portuguesa – respondi com um sorriso.
– De onde?
– Lisboa.
– Ah, eu sou da zona do Porto mas já moro em França há alguns anos. Aqui é a capital dos portugueses, apesar de não haver muitos turistas.

Ficamos alguns minutos a conversar sobre o restaurante, a família e Sarlat. Conto-lhe o plano do que pretendo ver na região. Despedimo-nos pois o trabalho não espera. A esplanada está cheia.

Na manhã seguinte, Sarlat está diferente. Às 9h30 abrem as primeiras lojas, começa a colocar-se as ementas à porta e espalham-se as cadeiras. O chão é primeiro varrido e depois lavado. Em breve está criado o ambiente para receber as centenas de visitantes que não tardam.

Sarlat-la-Caneda Sarlat-la-Caneda

Entro em primeiro lugar na Catedral Saint-Sacerdos, com o sol a passar pelos vitrais e a refletir na pedra limpa. Passo pela Maison de la Boétie, onde nasceu Étienne de La Boétie e sigo para a Lanterne des Morts. É uma construção curiosa e muito procurada pela localização. É que aqui é dos melhores lugares para fotografar a catedral.

Lanterne des Morts; Sarlat-la-Caneda Sarlat-la-Caneda

A Rua Montaigne é das mais conhecidas de Sarlat. Aqui pode ver-se o maior número de fachadas renascentistas de França, com a hera a abraçar a pedra dourada, as roseiras floridas e as glicínias que recordam a primavera.
Sigo até à Presidial, um antigo tribunal, hoje transformado em restaurante. Antes de regressar à agitação, perco-me nas ruas estreitas mas cuidadas de Sarlat. Não são propriamente becos mas há locais bem recônditos e cheios de interesse. Descubro uma janela, um pequeno nicho com uma estátua, um candeeiro trabalhado ou um arco que encurta caminho.

Sarlat-la-Caneda

A Praça de la Liberté é o centro de Sarlat e encontro-a completamente distinta do dia anterior. Há carros, motos e carrinhas de mercadorias, produtos expostos no exterior das lojas que tapam as fachadas, esplanadas que parecem não terminar e alguns dos restaurantes, apesar de ainda ser cedo para almoço, fazem questão de atrair (ou afastar) os clientes com a música alta demais.
A Ancienne Eglise Sainte Marie, atual mercado coberto, tem uma das grandes portas aberta, da qual saem senhoras com os seus carrinhos e cestos de compras. É aqui que o Basco me mostra alguns dos produtos típicos da região.

Sarlat-la-Caneda

Em frente ao mercado fica a Manoir de Gisson. Não estava no plano entrar mas a visita acabou por me surpreender. Subindo uma escada em caracol acedo aos vários pisos, decorados de forma a mostrar o modo de vida numa casa típica. A cozinha é deliciosa, com o bolo de noz no forno, os legumes no tacho de cobre e exemplos de produtos da terra. No último piso ficam os quartos dos empregados, onde dá para perceber o sistema dos telhados. A pedra, muito semelhante à lousa, assenta diretamente na madeira, sem proteção adicional. Têm um ar rústico e bonito do exterior mas devia deixar passar muito frio.

Chego finalmente à Praça du Marché des Trois Oies. São o símbolo da iguaria da região: o foie gras. Este é o principal produto vendido nas muitas lojas de especialidades gastronómicas, nas várias formas de confeção: há o chamado confit de canard, cassoulet, rilletes, patés e mousses. Os patos servem também para decoração de tudo o que se possa imaginar: louças, vidros, panos de cozinha, aventais, toalhas de mesa. É só entrar nas lojas de souvenires e escolher.

Sarlat-la-Caneda

Opto por não enveredar pela Rua de la République e manter-me na zona medieval. Há tantas fachadas a descobrir, pequenas ruas, vitrais, fontes e muitos pontos de troca de livros. Vou parando junto dos músicos de rua e abrando a marcha à medida que me aproximo do fim. Sarlat tem história, boa comida, gente que sabe receber bem. É intimista, aconchegante e envolvente. Não me apetece deixar esta viagem no tempo.

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