2 de junho de 2015

Dormir num château em Saint-Émilion

A cerca de 40 quilómetros de Bordéus, Saint-Émillion é fortemente caracterizada pelos châteaux que surgem no meio dos vinhedos e monumentos que remontam a séculos atrás. Está classificada como Património Mundial da Unesco.
Saint-Émillion
 
Passou recentemente na televisão o filme "A Good Year" do Ridley Scott. No espaço de um mês revi-o duas vezes e recordei que o meu ano de 2014 também foi especial. Uma das razões foi conhecer Saint-Émilion, que além de ser umas das mais importantes regiões vínicas do mundo, concretizei o desejo de pernoitar num château.
 
Cheguei a esta aldeia ao pôr do sol, o que por si já é uma experiência marcante. A paisagem dominada pelo verde das vinhas irradiava uma luz dourada. Foi envolta numa grande emoção que segui vagarosamente até avistar o château Franc Grâce-Dieu. Saí da estrada principal para uma de terra batida que me conduziu à porta. Parei sob uma árvore de grande porte que me provocou um profundo suspiro. Tinha finalmente chegado e sentia-me feliz por isso.
 
Saint-Émillion
 
O jardim não me deslumbrou apesar de cuidado. A relva estava aparada, as flores alegravam os vasos e os bancos de pedra, as cadeiras de ferro e os baloiços convidavam a contemplar a paisagem.
 
Um rosto bem sorridente cruzou as portadas de madeira e perguntou-me se era “madame Eva”.
 
– Oui – respondi - mas não falo bem francês. Podemos falar em inglês?
 
Encolheu os ombros e sorriu.
 
– É que eu também não falo bem inglês.
 
A gargalhada foi inevitável, reveladora das limitações de ambas mas que acabou por proporcionar um momento de boa disposição. Entregou-me um chaveiro enorme e escolhi o pequeno almoço para o dia seguinte. Eu e os restantes hóspedes ficamos toda a noite sozinhos.
 
Saint-Émillion
 
O cão de louça a meio do patamar transportou-me para um ambiente kitsch, ideia bem contrária à que tinha dos franceses. Mas quando espreitei a sala de estar com o grande relógio de parede, o tabuleiro de xadrez, a máquina de costura e a exposição de vinhos da quinta concluí que talvez fosse algum objecto com valor sentimental, o que lhe confere uma graça completamente diferente.
 
Saint-Émillion
 
As escadas de madeira rangiam ligeiramente sob as minhas passadas, como a anunciarem que algo estava prestes a acontecer. Ao rodar a grande chave inclinei o corpo para trás. Senti-me arrebatada pelo odor e impacto visual. Avancei de imediato para a janela e corri a cortina de linho rendada. Houvesse mais janelas e abri-las-ia todas, tentando absorver a paisagem imersa em tranquilidade. Dentro de portas, esse ambiente propaga-se a cada pormenor pensado para seduzir e relaxar: o branco da colcha, o cinza do grande roupeiro, as galinhas de louça em vez de candeeiros e uma banheira para dois onde de imediato pus a água a correr.
 
Saint-Émillion
 
Na manhã seguinte, ao descer as escadas, pensei que serei a benjamim. Não podia estar mais certa. A média de idades rondava os 50 anos. Uma mesa grande e farta de pão quente, compotas caseiras, croissants e até pequenos cannelés. Dois alemães pouco faladores, quatro ingleses apressados e dois portugueses curiosos que acabaram por ficar sozinhos com um casal de canadianos. Foi com eles que troquei impressões de roteiros e partilhei este gosto pelas viagens.
 
O sol quente da manhã iluminava a fachada do château. Não estive muitas horas mas custou-me deixar toda aquela serenidade. Sem dramas, alguma comédia e muito romance, Saint-Émilion teve uma forte influência no meu ano especial, com os seus vinhedos, as ruas empedradas, as esplanadas e as lojas cheias de caráter. A vida não é um filme mas Ridley Scott conseguiu captar na perfeição aquele momento.
 
Château Franc Grâce-Dieu
Lieu dit la Grâce-Dieu
33330 Saint-Émilion, France

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