11 de fevereiro de 2015

Passeio pela Mouraria


A Mouraria, ou “bairro de mouros”, é dos locais mais emblemáticos de Lisboa. Com um património arquitectónico que remonta às origens de Portugal, merece um passeio demorado, com o olhar desperto a descobrir recantos.


Percurso histórico pela Mouraria

Regressar à Mouraria é sempre uma experiência emocionante. Apesar de já a ter percorrido várias vezes, consigo surpreender-me com algo novo. E nada como uma manhã de Inverno para mais um passeio. O objetivo era iniciar o percurso no Intendente e terminar na Rua da Madalena, centrando a atenção na arquitetura mas sempre atenta a eventuais surpresas.

A esta hora da manhã, a Av. Almirante Reis é um lugar tranquilo. Atravesso em direção à casa de Guilherme Coelho, que recebeu o prémio Valmor em 1908. Sentei-me num banco que compõe a obra "Kit Garden", criada por Joana Vasconcelos, um ótimo local para admirar as fachadas de azulejos envolventes, incluindo a da Fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego, fundada em 1849. Cruzei o portão ao lado para mais uma visita à loja A Vida Portuguesa, onde há sempre algo genuinamente nacional a descobrir.

Largo do Intendente

Continuo o meu percurso para a Rua da Mouraria, onde no nº 64 não deixei de reparar no portal manuelino. Apesar de relativamente discreto, é de realçar as colunas com os capitéis invertidos. Mas foi quando atravessei a porta que está do lado esquerdo que a surpresa aconteceu. Construído no século XIII, o Antigo Colégio dos Meninos Órfãos  apresenta um dos mais importantes conjuntos de painéis de azulejos com representações do Antigo e Novo Testamento.

A Capela de Nossa Senhora da Saúde, antiga ermida dedicada a São Sebastião, fica a poucos metros de distância. As festividades em sua honra são dos cultos mais importantes de Lisboa, com a presença de figuras ilustres. Aqui é um local estratégico para observar vários pontos: a Praça Martim Moniz, os vestígios da muralha fernandina e as Escadinhas da Saúde.

Escadinhas da Saúde

Apesar de subir umas das escadas tradicionais de Lisboa ser um desafio, optei por voltar atrás e entrar pela Rua do Capelão. Reparo na casa de ressalto logo à entrada mas é o monumento dedicado ao fado, com a guitarra portuguesa, que se destaca. Um mapa afixado na parede indica os locais onde estão expostos os retratos da autoria de Camilla Watson dedicados a figuras do fado relacionadas com a Mouraria.

Rua do Capelão

Atravesso o Largo da Severa e no cimo da Rua da Guia encontro a Igreja de Nossa Senhora do Socorro. Até finais do século XV era aqui a Mesquita Grande da Mouraria e só cerca de 50 anos depois passou a ser o Coleginho (Antigo Colégio de Santo Antão da Companhia de Jesus), primeira casa dos Jesuítas no mundo. Tive a sorte de estar aberta e por isso entrei. Para além da estátua de Nossa Senhora do Socorro, o claustro manuelino e os bonitos azulejos da sacristia merecem a visita.

Igreja de Nossa Senhora do Socorro; Mouraria

Estátua de Nossa Senhora do Socorro; Igreja de Nossa Senhora do Socorro; Mouraria
Segui pela Rua Marquês Ponte de Lima até ao Largo da Rosa. Do lavadouro público avista-se o casario lisboeta e o miradouro de São Pedro de Alcântara. A estátua do escritor Afonso Lopes Vieira é o testemunho de mais uma personalidade nacional que aqui habitou. Tempos houve em que o Palácio da Rosa conheceu melhores condições mas é com tristeza que hoje olho para o estado de ruína. Ainda assim, o brasão dos Marqueses de Ponte de Lima mantém a sua beleza.

Brasão dos Marqueses de Ponte de Lima; Palácio da Rosa; Mouraria

Quando cheguei ao Largo da Achada esbocei um sorriso. Após ver tantas vezes aquela imagem, estava finalmente perante a casa de ressalto medieval mais conhecida de Lisboa. Imagino que agrade a muitos que diariamente por aqui passam e a rede pendurada e os tanques pintados dão-lhe um ar muito catita. Mesmo ao lado fica a Associação Casa da Achada – Centro Mário Dionísio que aproveitei para conhecer. Criada pela família e amigos do pintor, organiza várias atividades culturais gratuitas, como exposições, tertúlias e sessões de cinema. Fiquei a saber que um dos seus quadros foi apreendido pela PIDE na II Exposição de Artes Plásticas e que Mário Dionísio terá comentado desta forma “espirituosa”: “Ainda bem que a PIDE o levou. Não gostava nada dele.”

Casa de ressalto medieval no Largo da Achada

Neste passeio pela Mouraria, o melhor veio no fim. A Igreja Paroquial de São Cristóvão só abre para culto e como era final de missa, entrei. A primeira impressão é da imensa quantidade de quadros que revestem as paredes. Infelizmente, necessitam de restauro mas já se sabe, o dinheiro não dá para tudo. O padre Edgar teve a simpatia de fazer uma pequena visita. Construída no final do século XVII, foi projetada pelo arquiteto João Duarte. Os vários painéis retratam cenas da Bíblica, como o “Beijo de Judas”, “A assunção de Nossa Senhora”, “Santo António a distribuir pão aos pobres” ou a vida de São Cristóvão. Na sacristia, para além dos paramentos do século XVII bordados a fio de prata dourada, há um quadro de Bento Coelho da Silveira que retrata a morte de S. José. E para finalizar com chave de ouro, ainda vi os túmulos da capela dos Miranda que datam do século XV.

Túmulos da capela dos Miranda; Igreja Paroquial de São Cristóvão; Mouraria

Foi desta forma cativante, cheia de sentido de humor e boa disposição que terminei a visita junto ao Mural nas Escadinhas de São Cristovão. O padre Edgar também está retratado ao lado de fadistas célebres da Mouraria, como a Severa, com o seu ar atrevido. Sentou-se ao lado do seu graffiti e deixou-se fotografar, tal como faz com alguns turistas que o reconhecem quando passa nas ruas. É esta a imagem e postura de uma Igreja próxima da comunidade.

Mural nas Escadinhas de São Cristovão

O passeio pela Mouraria revelou-se muito mais enriquecedor do que inicialmente previra. O que poderia ter sido uma simples descoberta de património arquitectónico transformou-se numa partilha de histórias e na vontade da sua população se dar a conhecer. Por detrás de cada fachada há pessoas orgulhosas do seu bairro.

2 comentários:

  1. Gostei muito de rever a Mouraria através do teu olhar e com vontade de regressar lá o mais depressa possível.

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  2. A Mouraria é um lugar único em que cada visita é uma descoberta.

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