10 de dezembro de 2014

A tradição ainda mora no Bolhão


Na cidade do Porto, o Bolhão é a artéria do comércio de rua, das mercearias finas e da comida caseira. Sabores tradicionais a descobrir.

Mercado do Bolhão

“Oh querida, não quer levar uma frutinha?” perguntam-me de mão na anca e outra no bolso do avental assim que entro no Mercado do Bolhão. O tempo dos pregões no verdadeiro vernáculo portuense parece estar esmorecido, talvez motivado pelo ambiente de ruína que se sente. Apesar da placa numa das padarias “Para sua satisfação, faça compras no Bolhão”, são mais os turistas que percorrem os corredores de portas maioritariamente fechadas do que locais que deveriam fazer as suas compras a esta hora da manhã.
Os produtos são variados e passam pela fruta, legumes, flores e até animais vivos que nos olham de lado pelos buracos da gaiolas. A aposta nos panos de cozinha bordados com o bem português galo de Barcelos é boa opção: há sempre procura.

Mercado do Bolhão

Da varanda do primeiro andar, a visão da chuva a cair acentua a imagem triste. Desta perspectiva consigo equacionar várias opções que poderiam devolver a dignidade a este lugar icónico do Porto. Sei que há propostas de reabilitação do espaço mas nenhuma ainda avançou. Só espero que quando regressar não o encontre transformado num amontoado das tão em voga “lojas gourmet”, decoradas com mobiliário low cost pouco confortável e que em nada perpetua a memória do Bolhão.
Nas ruas circundantes, a tradição do comércio de rua ainda se mantém. Por vezes, os passeios são estreitos para o corrupio constante de carrinhos de compras e dos braços que carregam sacos bem recheados.
Apesar de ainda faltar uns meses para as sementeiras, não pude deixar de entrar na Casa Hortícola, no nº 304, na esquina da Rua Sá da Bandeira com a Rua Formosa. Esta casa, aberta desde 1921, é um verdadeiro quadro pictórico de pacotinhos coloridos de sementes e bolbos de flores. Os mais desconhecedores do assunto encontram aqui as pessoas certas para uma ajuda bem informada.

Casa Hortícola

Percorrendo as ruas, encontro várias mercearias finas. Entrar é regressar à infância, quando as compras eram feitas no meu bairro, os sacos de plástico não tinham logótipos e o regresso a casa era feito a pé. Havia sempre um doce para tornar o caminho mais curto.  Recordo o cheiro do bacalhau, os sacos de bolos e os boiões de rebuçados.
Com o cada vez maior gosto pelo cultivar da tradição, estas casas mantêm vivo o comércio de rua e são verdadeiros templos para os amantes do gourmet. Apostam em produtos de qualidade e não se restringem ao que é nacional. Por isso, os apreciadores de produtos mais exóticos poderão encontrar aqui aquele ingrediente especial. As montras parecem cheias mas a decoração não foi deixada ao acaso: é que primeiro comem os olhos. Em geral não diferem muito entre si dos produtos comercializados: charcutaria, queijos, vinhos, frutos secos, conservas, o fiel amigo e claro está, o vinho do Porto.

A Favorita do Bolhão

Na Rua Formosa, uma tríade da excelência gastronómica: para além da Comer e Chorar Por Mais e a Mercearia do Bolhão, é impossível ficar indiferente à fachada da Pérola do Bolhão, decorada com azulejos com pinturas alusivas ao chá e café. Subindo a Rua Sá da Bandeira, duas distintas mercearias finas do Porto: a Casa Chinesa e a Casa Ramos. Na Rua de Fernandes Tomás, a Favorita do Bolhão conta já com 80 anos.

A Pérola do Bolhão

A fechar o cardápio, até porque ver tantas coisas boas abre mesmo o apetite, sugiro uma refeição no Restaurante O Buraco. Não se deixem assustar com a fila que certamente haverá à porta. Em poucos minutos alguma mesa irá vazar. A espera vale a pena pela comida tipicamente portuguesa, sem esquecer o tradicional cozido ou as tripas à moda do Porto. Uma rabanada é a sugestão perfeita para terminar. Apesar dos clientes habituais, começam a ver-se cada vez mais turistas de outros países. O Buraco é cada vez menos um segredo só de alguns.

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