26 de maio de 2014

Pão de Ló de Margaride

“Era uma vez uma senhora chamada Leonor Rosa da Silva”. A história da Fábrica do Pão de Ló de Margaride poderia começar assim.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride

No nº 304 da Praça da República, em Felgueiras, numa casa com as suas varandas de ferro forjado e toda revestida a azulejo verde, mantém-se o fabrico artesanal de um pão de ló com quase três séculos.
Fazer jus ao impacto que tem passar apenas a porta de entrada e subir a escadaria de madeira, ladeada pela balaustrada e vários quadros não é tarefa fácil. Ao cimo, Carlos Ferreira, apaixonado por História, estórias e por esta casa, é quem me recebe.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride

É impossível o coração não acelerar num lugar como este. Sobre um balcão de madeira, com tampo em mármore preto e branco, encontra-se uma balança que já terá perdido a noção de todos os quilogramas que pesou. Na pequena mesa, com uma cuidada simplicidade, a montra dos produtos aqui confecionados.
É provável que o seu fabrico seja anterior mas foi em 1730 que Clara Maria o registou tal como é hoje feito, sendo a 10ª marca mais antiga do país. Antónia Filix sucedeu-lhe e após a sua morte foi Leonor Rosa da Silva que governou a Fábrica do Pão de Ló de Margaride, elevando-a em 1888 a Fornecedora da Real e Ducal Casa de Bragança. Os dois brasões atrás do balcão de venda são disso a prova assim como o carimbo de autenticação usado no papel que acompanha os seus produtos.
Leonor Rosa da Silva, considerada como a doceira de Felgueiras, marca a sua presença num espaço privilegiado da fábrica. O seu quadro por cima da escadaria observa os muitos que mantêm a tradição de vir comprar o pão de ló de Margaride para receber convidados, em épocas festivas ou para oferta como sinal de agradecimento.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride

Quando entro na sala de fabrico e vejo tudo impecavelmente limpo e arrumado percebo a razão de algumas pessoas acharem que é um museu. No entanto, é aqui que desde 1900 se confeciona o que é considerado o símbolo de prestígio da cidade de Felgueiras.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride

Os ingredientes são os comuns do pão de ló mas doce que se preze tem um segredo. Apenas a família o sabe, vai passando de geração em geração e atualmente é Guilherme Lickfold quem “deita as contas”. A massa é colocada nas masseiras que apenas tiveram duas alterações: instalou-se o motor e alterou-se o revestimento por questões de segurança alimentar.
No interior de uma forma de barro é colocada uma tigela virada para baixo, depois duas folhas de papel onde está impresso o carimbo de autenticação e só depois a massa. Por cima é fechada com outra forma de barro. Vai a cozer ao forno a uma temperatura de 280ºC, sem nunca se abrir a porta. Arrefece destapado e inclinado de modo a haver circulação de ar.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride

O coração volta a acelerar quando entro no salão nobre. Não esperava um lugar que seduzisse de tantas formas os meus sentidos: primeiro o impacto visual, associado ao efeito surpresa; o cheiro é delicioso; o olhar perde-se entre tantos objetos que apetece tocar e o paladar anseia por degustar as iguarias expostas.
A história do pão de ló de Margaride cruza-se com a família real portuguesa. Na parede há um pequeno quadro com os retratos de D. Amélia e D. Carlos, que se repetem sobre a mesa. Ao fundo há uma esfera armilar e junto à janela um dos primeiros telefones de Felgueiras a partir do qual Leonor Rosa da Silva estabelecida contacto com o Brasil.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride

É hora de guardar o caderno, sentar e saborear uma fatia de bolo acompanhado por um cálice de vinho do Porto. O pão de ló de Margaride mantém-se fofo durante três semanas mas em caso de dúvida, Carlos Ferreira exemplifica como se atesta a sua frescura: dobra-se ao meio e se não rachar é porque ainda está fofo.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride

As cavacas são diferentes das que conhecia de outros pontos do país. Confecionadas com a mesma massa do pão de ló, após saírem do forno são escovadas por mãos experientes e feito o ponto de açúcar. São tão fofas que não resisti a repetir.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride

A Fábrica do Pão de Ló de Margaride é daqueles lugares onde sabe bem estar. A emoção de Carlos Ferreira é cativante, levando-me a viajar por quase três séculos de doces histórias. Poderia ficar horas a conversar, não fosse o tempo implacável e me obrigasse a partir.

Fábrica do Pão de Ló de Margaride, Lda
Praça da República, 304
4610-116 Felgueiras
www.paodelodemargaride.com

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